Na manhã desta semana, a movimentação na penitenciária do Sul de Santa Catarina não era feita apenas por agentes, procedimentos e portões de ferro. Do lado de fora, o cenário era marcado por mães, irmãs, pais e poucas namoradas carregando sacolas, documentos e, principalmente, esperança.
Vindas de cidades como Joinville, Garopaba, Imbituba, Araranguá e outras regiões do estado, elas aguardavam por algumas horas de visita aos familiares presos na unidade prisional que atende grande parte do Sul catarinense.
O que parecia apenas mais um dia de visita revelou histórias profundas de dor, arrependimento, medo e revolta.
Entre entrevistas e conversas espontâneas, uma realidade chamou atenção: a maioria das pessoas que aguardavam não eram companheiras dos detentos, mas mães e irmãs. Mulheres trabalhadoras, muitas bem vestidas, discretas, carregando no olhar o peso de anos difíceis.
“Meu filho não foi pego com nada, mas pegou oito anos por associação com facção”, relatou uma mãe emocionada.
Outra mulher contou que o filho recebeu mais de 20 anos de prisão após ser preso junto com outros jovens envolvidos com o tráfico. Em comum entre os relatos, uma mesma frase aparecia repetidamente: “Eles eram meninos novos.”
Segundo as famílias, muitos dos presos entraram no mundo do crime ainda muito jovens, através do envolvimento com drogas e tráfico, acabando posteriormente ligados às facções criminosas.
O medo de penas mais duras também dominava as conversas nos corredores de espera. Algumas mães comentavam sobre mudanças na legislação e demonstravam preocupação com punições cada vez mais severas para crimes relacionados ao tráfico e organizações criminosas.
Mais do que discutir leis, o ambiente revelava o drama humano de famílias inteiras que vivem diariamente as consequências das escolhas feitas pelos filhos.
Mas além da dor emocional, outro problema gerou revolta entre os visitantes: as falhas no sistema de autorização para visitas.
Diversas mulheres relataram que fizeram cadastro antecipado, enviaram documentos, receberam confirmação e viajaram quilômetros até a penitenciária. Porém, ao chegarem ao local, foram informadas de que o sistema “não reconhecia” a autorização.
O resultado foi frustração, choro e sentimento de humilhação.
“Eu vim de longe, estava tudo certo no e-mail. Agora mandam voltar outro dia”, desabafou uma visitante.
Para muitas famílias, o custo da viagem pesa no orçamento. Algumas passam horas na estrada, enfrentam ônibus, caronas e despesas para conseguir poucos minutos de contato com os familiares presos.
O que mais impacta, porém, é a sensação relatada por muitas delas: a de que acabam sendo tratadas com o mesmo julgamento direcionado aos detentos.
Enquanto os portões se fechavam para algumas visitantes, o lado de fora seguia tomado por mães sentadas, olhando para o celular, segurando documentos e tentando entender como um sistema digital pode ignorar a distância percorrida e o sofrimento carregado por quem apenas deseja ver um filho.
A realidade do sistema prisional vai muito além das grades. Ela alcança famílias inteiras, principalmente mães, que vivem uma pena silenciosa do lado de fora.