23 de outubro de 2017
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Chiquinho
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Mulheres se preparam para voltar a apitar na elite do futebol do País

PUBLICADO DIA: 14/09/2017
POR: Portal Farol
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Aos poucos, elas se preparam para retomar o espaço. Desta vez, o objetivo é chegar para ficar. Com apoio da Comissão de Arbitragem da CBF, as mulheres estão trabalhando para voltar a apitar jogos da elite do futebol brasileiro. O objetivo é alcançar a Série A do Campeonato Nacional em 2019 ou no máximo em 2020.
Para isso, o projeto de capacitação das meninas ganhou novo impulso nos últimos anos. Elas são submetidas, periodicamente, a treinamento técnico e físico e também recebem apoio psicológico, para que se fortaleçam mentalmente. O quadro feminino na CBF ainda é pequeno – 14 árbitras e também há 49 assistentes -, mas a perspectiva é de crescimento.

 


A árbitra goioerense Edina Alves Batista, que faz parte do quadro da Fifa, em programa de capacitação Foto: Denny Cesare
Há treinos específicos para as mulheres, mas na maioria das vezes os cursos são mistos. As exigências, inclusive em relação à condição física, são iguais para homens e mulheres. A intenção é aprofundar cada vez mais o treinamento delas.
Além de colocar os ensinamentos em prática: já há mulheres trabalhando como árbitras centrais em jogos do Brasileiro Sub-20 e em divisões inferiores, como as séries C e D. Na Série A, a última mulher a apitar uma partida foi Sílvia Regina Oliveira: Paysandu 2 x 1 Fortaleza, em 16 de outubro de 2005, ou seja, há quase 12 anos.
Em alguns Estaduais, elas já exercem a função de árbitra central. Em Pernambuco, por exemplo, Déborah Cecília Correia apitou nove jogos este ano, entre eles dois clássicos (Sport x Santa Cruz e Náutico x Santa Cruz) e foi bastante elogiada.
No entanto, se a figura da assistente feminina se tornou corriqueira no futebol brasileiro e já é aceita com naturalidade, ter uma mulher no apito ainda é situação que enfrenta resistência, preconceito. Dentro de campo o futebol ainda é visto como um ambiente predominantemente masculino. Por isso, o trabalho de reinserção é feito com calma, gradativamente.
“Estamos começando a abrir oportunidades para que elas possam atuar em competições masculinas’’, diz o coronel Marcos Marinho, presidente da Comissão de Arbitragem da CBF. “O preconceito está caindo. As assistentes não sofrem mais. Mas, com a mulher no centro (apitando), ainda existe alguma restrição, certo receio. Precisamos ter muito cuidado, ir inserindo aos poucos’’, diz Ana Paula Oliveira, instrutora da Escola Nacional de Arbitragem.

A árbitra Edina Alves Batista e as auxiliares de arbitragem, Neuza Back (E) e Tatiane Sacilotti (D), que fazem parte do quadro da Fifa. Foto: Denny Cesare
As barreiras ainda existentes aumentam a importância de se fazer um trabalho de fortalecimento psicológico nas candidatas a árbitras centrais. “O homem já está acostumado com o ambiente masculino. A mulher não, precisa se familiarizar. Ela vai viver em um ambiente hostil e precisa saber como lidar com ele. Por isso temos esse suporte psicológico para as meninas.’’
A tutora das meninas diz que o trabalho com as mulheres é baseado em quatro pilares: físico, técnico, mental e social. “A mulher precisa saber lidar com a pressão que o homem vai colocar sobre ela, saber se impor, tomar decisões. Não basta conhecer as regras e ter bom preparo físico, tem de saber como lidar com todo esse contexto.’’
EVOLUÇÃO
Uma barreira que atrapalhou a arbitragem feminina no passado praticamente inexiste hoje, garantem Ana Paula e Marcos Marinho. Fisicamente, as mulheres já se mostram capazes de acompanhar o ritmo de um jogo masculino. “Hoje, elas conseguem atingir o índice do teste masculino. Já estão aprovadas na parte teórica, no mesmo nível. Por que, então, não pensar na possibilidade (de voltarem a apitar na Série A)”?, diz a tutora. “Quem sabe daqui a um, dois anos.’’
Marinho também atesta o progresso. “A gente passou a exigir o (os parâmetros do) teste masculino, e não é algo tão fácil para elas, mas estão tendo um índice maior de aprovação’’, assegura. “A Edina (Alves Batista), que é Fifa, passou no teste masculino. Por isso está apitando em competições masculinas.’’
Este ano, Edina já apitou na Série D e uma partida do Brasileiro Sub-20 (Coritiba 4 x 1 Grêmio), este no mês passado.
Ele diz ter constatado grande evolução nas mulheres em aspectos como velocidade, movimentação, leitura de jogo, desenvolvimento de técnica para se antecipar nas jogadas. “O trabalho é voltado para que elas desenvolvam isso. Técnicas de posicionamento, deslocamento. Tecnicamente, não devem nada a ninguém. O que faltava era essa presença maior nas jogadas.’’
Colocá-las em jogos da Série D, onde na teoria o ambiente poderia ser mais hostil do que na Série A, faz parte dessa preparação gradativa. “Se menina for mal, a repercussão numa Série D pode ser danosa. Mas na Série A ganha o mundo. Até um erro menor tem grande proporção. Isso pode comprometer a carreira se a menina não estiver pronta’’, diz Ana Paula.

 


A auxiliar de arbitragem, Neuza Back, que faz parte do quadro da Fifa. Foto: Denny Cesare
EXPERIÊNCIA ALEMÃ
O futebol alemão terá neste domingo pela primeira vez uma mulher apitando um jogo da Bundesliga, a Primeira Divisão do campeonato local. Bibiana Steinhaus, de 38 anos, vai ser á arbitra principal do jogo entre Hertha e Werder Bremen, em Berlim.
Bibiana faz parte do quadro da Fifa desde 2005. Dois anos depois, passou a apitar na Segunda Divisão alemã, tornando-se a primeira mulher a ser profissional de arbitragem no país. Também trabalhou várias vezes em partidas da Copa da Alemanha.
PIONEIRISMO
Sílvia Regina de Oliveira foi a primeira mulher a apitar um jogo da Série A do Campeonato Brasileiro. Em 29 de junho de 2003, dirigiu Guarani 0 x 1 São Paulo, no Brinco de Ouro. As assistentes também foram mulheres: Ana Paula Oliveira e Aline Lambert.
Paulista, Sílvia Regina trabalhou como árbitra central em jogos do Estadual entre 2001 e 2007. Dois anos antes, foi alvo de polêmica criada pelo hoje técnico da seleção, Tite.
Após um clássico em que o São Paulo venceu o Corinthians Tite, demitido por causa da derrota, reprovou a escalação de Sílvia. Disse que, por ter menor força muscular e velocidade, mulheres não conseguiam acompanhar o ritmo de um jogo masculino.
Criticada em várias outras ocasiões, Sílvia, hoje instrutora da Federação Paulista, não considera ter sido vítima de preconceito. “Para quem fez uma Olimpíada (2004, na Grécia), Mundiais, não existe essa palavra no dicionário.’’

Almir Leite, O Estado de S.Paulo

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