13 de dezembro de 2017
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Chiquinho
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Quanto mais cedo melhor

PUBLICADO DIA: 30/09/2015
POR: Dr. Drauzio Varella
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hivSe eu descobrisse que havia contraído o HIV, começaria o tratamento imediatamente. Não levaria em conta se a transmissão era coisa de cinco anos atrás ou do mês passado.

 

Embora o caso seja de extrema importância para os estudos do HIV, é prematuro afirmar que esse fato específico indica o caminho a seguir para a descoberta da cura da aids.

 

Mais de 34 milhões de pessoas são portadoras de HIV

 

Desde o final de 1995, quando surgiram os primeiros antivirais mais potentes, os especialistas discutem qual seria o momento ideal para iniciar o tratamento.

 

Baseados em observações pessoais e em estudos clínicos realizados com poucos participantes, alguns especialistas aconselham que os antivirais sejam prescritos assim que a infecção for diagnosticada. No Brasil, o Departamento de DST-Aids recomendou a implementação dessa estratégia já em 2013.

 

A falta de estudos conclusivos e as dificuldades na obtenção de recursos para medicar os 35 milhões de infectados existentes no mundo, entretanto, explicam por que boa parte dos países propõe tratar apenas aqueles com células CD4 na corrente sanguínea abaixo de 500 (normal entre 500 e 1.200/mm3).

 

Mais conservadora, a Organização Mundial da Saúde adota o limite de 350. Ainda assim, menos de 14 milhões de pessoas recebem os antivirais nos cinco continentes.

 

Para esclarecer a controvérsia, em março de 2011, foi iniciado o estudo START, realizado em 35 países, entre os quais o Brasil.

 

O START recrutou 4.685 participantes HIV-positivos, saudáveis, com mais de 18 anos, que apresentavam níveis de CD4 acima de 500. Metade deles começou o tratamento imediatamente, enquanto os outros receberam os antivirais apenas quando a contagem de CD4 caiu para valores abaixo de 350 ou surgiram as infecções oportunistas e os cânceres característicos da Aids.

 

O estudo foi programado para terminar no fim de 2016. Em março de 2015, no entanto, a análise estatística demonstrou diferenças significativas que justificaram a interrupção da pesquisa: no grupo tratado imediatamente ocorreram 41 óbitos ou progressão para a fase de Aids, contra 86 desses eventos entre os que receberam tratamento mais tardio.

 

Portanto, o início imediato da medicação reduziu em 53% a mortalidade ou progressão para a fase de Aids.

 

O START é o primeiro ensaio clínico conduzido com milhares de participantes em vários países, a demonstrar as vantagens do tratamento já nas fases mais precoces da infecção, estratégia com implicações pessoais que terão impacto na saúde pública, porque os antivirais modernos reduzem em mais de 90% a probabilidade de transmissão do vírus para os parceiros sexuais.

 

Em 1996, quando surgiram as combinações de drogas que ficaram conhecidas como “coquetel”, a prevalência da infecção pelo HIV no Brasil era a mesma da África do Sul. Ao contrário deles, nós adotamos a política de distribuição gratuita dos antivirais. Lá, a prevalência atual é de 10%. Se estivéssemos na mesma situação, teríamos milhões de brasileiros com o vírus, em vez dos 600 mil estimados pelo Ministério da Saúde.

 

A prescrição de antivirais para os 35 milhões de crianças e adultos infectados no mundo reduziria bruscamente a velocidade de disseminação da epidemia.

 

Se considerarmos que atualmente apenas 62% dos adultos e 24% das crianças participam dos programas mundiais de distribuição gratuita, a um custo de U$ 6,3 bilhões por ano, concluiremos que seria necessário um investimento anual de R$ 20 bilhões. Para um esforço que envolvesse os países mais ricos do mundo, a quantia é irrisória; dinheiro de pinga, como diz o povo.

 

No Brasil, as estimativas são que, em cada quatro pessoas HIV-positivas, uma desconheça sua condição. Se estiverem certas, entre os 600 mil infectados haveria 150 mil espalhando o vírus sem saber. É muita gente. Se todos fossem tratados, a epidemia brasileira estaria controlada.

 

É preciso que o teste rápido para a Aids esteja disponível nas farmácias, de modo a ser realizado na saliva ou numa gota de sangue, na intimidade do lar. Não é o que fazemos com os testes para gravidez?

 

A ideia de que o aconselhamento com profissionais seja imprescindível para que as pessoas não se suicidem, ao saber da positividade do exame, é de uma ingenuidade atroz. Nunca vi ninguém se matar por medo de morrer.

 

Drauzio Varella

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